É no período vivido na Nazaré, de 1931 a 1936, que a sua atividade de pintor se manifesta de forma mais assídua – e ao facto não será estranho o estimulante convívio com pintores portugueses e estrangeiros (entre estes John Barber, Barry Green e Hagedorn) que com ele partilhavam a forte sedução ambiental da vila.
Nazaré terá sido o começo, Óbidos a continuação. Com afeito a atividade de Abílio prolonga-se, durante as férias, no velho burgo, cuja paisagem desenha e pinta durante muitos anos – mesmo depois de se ter fixado em Lisboa em 1961; desse tema, incansavelmente repetido até aos últimos dias, deixou-nos uma vasta e significativa produção.
Da participação de Abílio em exposições, são escassos e, por vezes, contraditórios os elementos ao nosso alcance. Embora existam referências relativas ao I Salão dos Independentes (1930), o seu nome não figura no catálogo.
A primeira participação em mostras coletivas de que existe conhecimento reporta à exposição de Arte Moderna na casa Quintão no Chiado, em 1935, onde se faz representar com cinco trabalhos.
Outras exposições se sucederiam, nomeadamente o Salão “Momento” no Grémio Alentejano (1935) e vários Salões do SNI (Secretariado Nacional de Informação).
Esta atividade de pintor viria a tornar-se mais espaçada – à medida que Abílio ia sendo cada vez mais solicitado para outras áreas de criação artística.
Colaborador da revista “Presença” (ao tempo em que esta era dirigida por José Régio) foi, como grafista e ilustrador, autor de numerosos trabalhos para revistas e publicações oficiais. Com a peça “Tá-Mar” de Alfredo Cortez inicia, em 1936, uma longa e notável carreira de cenógrafo e figurinista, traduzida em numerosas realizações no domínio do teatro, da ópera e do bailado.
Como funcionário do ministério da Economia, associa à atividade de ilustrador, a de designer, tendo nessa qualidade, sido condecorado pela ação desenvolvida em exposições realizadas no estrangeiro. É, cumulativamente, diretor de cena do Teatro Nacional de S. Carlos, onde leva a efeito algumas das mais importantes realizações cénicas. Será neste imenso labor que teremos de descortinar algumas das razões que levaram Abílio a um progressivo afastamento das exposições de pintura. Não deixou, no entanto, de pintar – desligado, embora, dos circuitos públicos normais. Dessa atividade solitária nos deu conta uma retrospetiva levada a efeito em Óbidos, em 1984 – um ano antes da sua morte.
O Museu Abílio
Abílio de Mattos e Silva dá o nome ao Museu Abílio onde um variado espólio, resultante da doação por parte da esposa, Maria José Salavisa, nos mostra o labor criativo e produtivo do artista sardoalense, ligado à vila de Óbidos em diferentes etapas da sua vida.
O Museu “Abílio” é um espaço de homenagem à obra e pensamento de Abílio, pretende ser motivador de pesquisa, investigação e divulgação das artes cénicas, fora do contexto da representação, onde a arte é sempre protagonista.
Trabalho vasto, distribuído por diferentes artes como Pintura, Desenho, Ilustração, Obras Gráficas, Cenografia e Figurinos, é apresentado no espaço do Museu de forma organizada e coerente. Algumas das obras apresentadas são parte integrante da história da cultura portuguesa, em associação com artes como o Teatro, a Dança e a Ópera, a que não falta a ligação de trabalho a autores de outros setores criativos.
Explanada por três pisos do Museu, esta mostra é enriquecida com apresentações e comentários escritos por figuras marcantes da arte e cultura portuguesas em diferentes momentos da vida criativa do artista; estes textos pontuam o espaço físico do museu, acompanhando a obra e valorizando a sua apresentação, pela oportunidade que dão ao visitante de melhor ficar a conhecer o autor e a sua obra.
Criador em diferentes áreas das artes-plásticas proporciona, através das diferentes obras que são apresentadas, um explanar pela arte portuguesa ao longo de várias décadas e em que a sua produção ligada ao teatro é, talvez, uma das mais valiosas da produzida em Portugal no decorrer do século XX.
Abílio, o Desenhador Teatral
Abílio de Mattos e Silva começou a sua carreira de desenhador teatral em 1936, quando Alfredo Cortez, talvez o maior dramaturgo português do século XX, o indicou a Amélia Rey Colaço para desenhar os dois cenários e figurinos da sua peça “Tá Mar”, obra situada entre a gente da Nazaré, mas cujo conteúdo transcende a mera imagem regionalista. Assim foi a peça levada à cena, pela Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, com enorme êxito no Teatro Nacional, então Almeida Garrett. E foi tão vasta e diversificada a carreira de Abílio no teatro, e muito mais ainda em outras artes, que, em 1963, desenhou, para o Teatro Nacional de S. Carlos, “Tá Mar”, a ópera de Ruy Coelho baseou na obra de Cortez.
Abílio e o Bailado
Em 1946, Margarida de Abreu, professora de Bailado no Conservatório Nacional, e com numerosos alunos particulares, procurou reformar a dança em Portugal, fundando o Círculo de Iniciação Coreográfica (CIC), publicando o seu Manifesto e promovendo um espetáculo com os seus alunos em que se destacavam as suas coreografias para “O Pássaro de Fogo”, de Igor Stravinsky, com o cenário de Abílio e figurinos de Tomás Costa, e “Arraial na Ribeira”, com música de Ruy Coelho e Figurinos de Abílio. E tão boa conta Abílio deu desse trabalho para o ballet, tão bem compreendeu aquilo que era necessário para tão exigente género de espetáculo, que passou a ser considerado, incontestavelmente, o grande desenhador de bailado em Portugal.
Tudo isto comprovando, quando Margarida de Abreu, no ano seguinte, 1947, apresentou “Quadros de Uma Exposição”, de Mussorgsky, o trabalho de Abílio é notável, como o atestam as maquetas que sobreviveram, num desenho enviesado a lembrar os melhores preceitos do surrealismo. Margarida de Abreu criou mais de vinte bailados, quase sempre em colaboração com as cores e formas de Abílio.
In “Abílio”, Município de Óbidos, 2008